The space that you used to be
Recentemente Tia Laura arrumou suas coisinhas, preparou um antepasto que só ela sabia fazer e o deixou curando em cima da mesa, tirou o pó dos ombros e pegou aquele elevador que só sobe, não desce; e se foi.
Com o poder de tranquilizar quem quer que fosse, ajudar como podia todos ao seu redor, sempre tinha aquele cafezinho-da-tarde-de-vó esperando a gente.
Entre uma bolacha e um pão recheado, ela me falava das dificuldades de ter um filho que teve derrame e que a tratava muito mal, mas que ainda sim ela o nutria por ser sua mãe. Me passa a manteiga? Claro, meu menino. E me contava mais uma história sobre ter engravidado muito cedo, ter tido sete filhos, um marido que tinha ciúmes de hospital e a obrigava a ter parto natural toda vez. Quer um pouco de suco? Por favor. Na época que ela teve as gêmeas, no frio, ela tinha que colocar bolsas quentes d'água em um berço para aquecer uma enquanto segurava a outra. Já estou satisfeito, Tia, muito obrigado.
Uma vida difícil traduzida com tanta sabedoria e leveza que você de vez em quando parecia de outra dimensão, um ser misterioso que a gente sente que emite algo, mas não entende muito bem o quê.
Logo depois que você se foi, seu filho, que te maltratava, te seguiu. Pegou o mesmo elevador e foi te visitar. Acho que a ligação de vocês era realmente decodificada, algo que só vocês deviam entender.
Você vai fazer falta, mas todo o ensinamento, todo o amor, todas as energias direcionadas à mim e aqueles que amo, como um farol no meio de uma viagem turbulenta de barco, vão me guiar onde quer que eu vá, pois sempre levo um pedacinho de você no meu bolso.
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