#9/365 - 13.12.22 - São Paulo - A mãe
Estou passando uns dias na casa dos meus pais em São Paulo. Voltar para cá me faz encarar uma realidade de onde às vezes teimo em escapar.
Estava refletindo sobre a minha preguiça quando ouvi a minha mãe no cômodo debaixo arrastando o andador para se movimentar pela casa.
Ela faz questão de fazer tudo apesar da mobilidade física limitada: Cozinhar, lavar louça, lavar roupa, limpar a cozinha. Sua atividade favorita é ir para o pilates, quando sai toda contente de casa. Um dia foi como eu, aberta à aventura e sempre querendo conhecer novos lugares. Hoje prefere o sofá ou fazer caminhadas no quintal de casa. Quando insistimos para ela sair, ela resmunga dizendo que não quer dar trabalho.
Não é fácil assistir à sua decadência física gradual que começou há 15 anos. Levá-la ao meu casamento foi um trunfo conquistado com um "personal trainer", que a ajudou a resgatar sua confiança. Na época, ela usava bengala. Ficava envergonhada, porque se achava jovem demais para precisar de uma, mas por fim a levou na sua primeira viagem internacional. Preferiu encarar a longa escadaria ao elevador para visitar a Catedral Sacré-Coeur. Não foi fácil, mas nunca vou esquecer sua risada larga quando chegou no topo e viu Paris atrás de si. "Que linda!", exclamou alto. Depois da conquista, quis visitar todas as igrejas possíveis na cidade para agradecer o feito.
Penso então no quanto ela queria ter todo movimento que perdeu para poder se cansar, todavia o seu cansaço hoje é o de lidar com suas limitações físicas e com o equilíbrio que se foi. Apesar de tudo, há uma alegria inesperada nela. Penso na minha preguiça, a qual ela diz não sentir mais, nem mesmo a de viver, como já sentiu um dia e quase nos deixou.