#5/365 - 06.12.22 - São Paulo | O creme
Encontrei com a minha irmã no último domingo. Ela me encarou assustada gritando: "O que aconteceu?" logo que notou o roxo se alastrando por onde outrora repousava meu bigode chinês. Contei que durante um procedimento estético, o médico provavelmente pegou um nervinho. Encarei-a de volta e percebi que, aos 55 anos, a minha irmã não tem uma ruga e nem sinal de bigode chinês. Enquanto vou entrar na faca pra fazer uma blefaroplastia, as pálpebras dela seguem intactas, sem qualquer flacidez.
Eu tenho uma pele ótima que eu cuido desde muito jovem. Adoro cremes e sempre investi muito dinheiro neles, mesmo não sendo necessariamente tão eficazes como se vendem. Fiquei encantada com a sua pele tão perfeita, porque foi só nesse momento que percebi que ela praticamente não tem marca de expressão. Perguntei quais são seus cuidados com o rosto. “Eu uso o creme Nívea da lata azul há décadas e apenas isso.” Ela sequer usa protetor solar, o que é denunciado por algumas manchinhas na bochecha, e também não bebe álcool, o que é uma dádiva para a pele.
Claro que tem também a ver com a genética e não sabemos como é a genética do seu pai, que não é o mesmo que o meu, mas ela é muito parecida com a minha mãe. Fiquei bolada com a diferença entre eu e ela. Voltei então os olhos pra minha mãe e só então notei que suas pálpebras são invejáveis aos 73 anos. Olhei para o meu pai e me vi nele, as pálpebras com vida própria quase saltando por cima dos olhos, tão caídos quanto os meus.
Lembrei-me então que sempre que testo esses aplicativos que envelhecem os nossos rostos, eu deixo de ser eu e viro o meu pai. Eu sou ele cabeludo amanhã.