#20/365 12.01.23 - Berlim - O meu outro Eu
Estou lendo "A cidade solitária", de Olivia Laing, em que a autora se muda para Nova York e passa a habitar a solidão. Ela escreve "Comecei a perceber que a solidão era um lugar povoado: uma cidade em si mesma." Para discorrer sobre o tema, Laing se cerca de artistas que viveram na mesma cidade tendo a solidão como mola propulsora para criar suas obras.
Andy Warhol e David Wojnarowicz são dois dos solitários que ela destrincha a vida e obra para refletir sobre este mal do mundo. Enquanto Warhol criou uma caricatura de si mesmo para lidar com a angústia de ser quem era e para "precaver-se de críticas, algo que todos nós fazemos de pequenas maneiras, mas o comprometimento e o esmero da intensificação de Warhol e seus defeitos é muito rara, atestando tanto sua coragem quanto seu medo extremo de rejeição". Warhol estava sempre cercado de pessoas, mas era um solitário.
Já Wojnarowicz usava a imagem de Rimbaud, em "Rimbaud in New York", como máscara para mostrar o seu mundo através de um outro EU. Tenho tatuado no meu cóccix "Je est un autre", de Arthur Rimbaud. "Eu é um outro". Nela, o EU é uma terceira pessoa. Fernando Pessoa colocou seus vários EUS em prática muito bem, criando Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares. Clarice Lispector também teve diversos EUS em sua obra.
Em "Moonage Dream", David Bowie fala sobre os diversos personagens que criou para não precisar mostrar a si mesmo. Virginia Woolf afirmou numa entrevista que era 20 pessoas quando escrevia.
Todos nós temos outros EUS. Escrevi na minha bio no Twitter "Sou várias e às vezes todas estão no mesmo lugar". Como disse Pessoa "Viver é ser outro.". Quem é você?