86/365 - quem matou meu pai
Acabei de ler Quem Matou o Meu Pai, do Édouard Louis e não posso usar outra palavra que não "cortante" para descrever a experiência de ler tudo em uma sentada.
A forma como ele costura sua história pessoal com a política... A rejeição dos pais por ele ser quem é, a repetição dos padrões, mesmo quando há tentativa de fugir de todos eles... A passagem esmagadora do tempo, a injustiça, os vícios e o desamparo.
Que triste. Mais triste ainda lembrar da minha própria história, da história do meu pai, que deve, sim, ter tentado fazer diferente. E fez, mas acabou no mesmo lugar que o pai dele em termos de relação com os filhos.
A violência me pegou demais também. E tenho pensado muito nisso... Quando fico com raiva, meus olhos se arregalam e as palavras saem em rajadas. Logo lembro dele, se sentindo profundamente injustiçado e descontando em mim, na minha irmã, na minha mãe.
E lembro que ele falava "vocês deveriam agradecer o pai que tem. Eu nem bebo! Eu sou um homem decente". E ele acreditava nisso. A gente não. Chorávamos de raiva, mostrando o dedo do meio atrás de uma parede sem reboco, com mosquitos picando nossa pele de criança ouvindo as gotas da chuva caírem em panelas e baldes do chão na parte de dentro da casa.
Não tinha estrutura. O amor não era verbalizado. E por isso que o livro doeu. E eu acho até que o personagem ganhou até mais amor do que eu. Pôde ouvir Celine Dion com o pai, dançar e rir até a barriga doer. Ele tem memórias boas, apesar de tudo.
Eu queria ter também. Mas sobra o desejo de me vingar. Sobra a frustração com a vida... E a dor em pedaços de concreto que me acompanham.