153/365 - procuro desesperadamente a vida
Recentemente a minha vida mudou. De forma irremediável. Passei os sete dias mais difíceis do ano, com camadas do meu ego caindo como se fossem peles de cobra. Sem escapatória. Elas tinham que cair pra eu continuar rastejando por aí. A velocidade foi incomum. Em sete dias, devo ter mudado de pele e descoberto uma nova eu umas 10 vezes. Pra mais.
Eu tava isolada, no meio da floresta amazônica a trabalho. Internet, energia, água e comida limitados. E tudo o que eu queria era desembalar coisas. O asfalto tóxico, a calçada de concreto onde pisar. Paredes, privacidade, solidão para respirar com calma sem ninguém pegando no meu cabelo.
A coletividade me foi opressora e mostrou faces de mim que não me eram conhecidas.
Ter tido acesso às carcaças de veado, espinhas de peixe, casco de tracajá, ossos de veado, enquanto galinhas ciscavam, cães pediam comida, passarinhos coloridos sobrevoando, urubus exercendo seu ofício, arraias passando sob meu pé, peixes mil fugindo, árvores se desenrolando em cura para frieira ou cólicas, mostrou uma nova dinâmica de morte e vida.
Lá, morte e vida dividem todos os minutos de forma simbiótica. Talvez, justamente por isso, o luto não seja tão ruim por lá, na minha percepção, claro. "Morreu faz parte, vamos fazer a próxima roça na semana que vem?"
Aqui na cidade, para onde estou de volta com alívio e extremo desespero, a morte impera. Quantas árvores e rios tiveram que morrer pra essa calçada existir. E essa ponte? Quantos passos eu tenho que dar até achar uma flor? Quantas estrelas é possível ver no céu de SP? E quantos aviões? Quantas torres? Quantos satélites?
Todos esses bancos de madeira que eu achava lindíssimos... Não acho mais. Não vejo beleza em nada. E não quero voltar pra floresta.
Vivo um dilema. Choro.