47/365 - o vendedor de agulhas
Vc não gosta de velas
Mas vc tem em casa
Vc não gosta de tesoura
Mas vc tem tesoura em casa
Vc não gosta de costurar
Mas vc precisa ter AGULHAS em casa pra caso tenha alguma urgência
Costurar é uma tradição
Dois reais apenas
26 agulhas
9 centavos cada agulha.
é o que repetia o senhor no vagão. passou uma, duas, três, quatro, cinco estações e ele no mesmo vagão, insistente. suplicando que as pessoas ali entendessem que as agulhas eram importantes para ele e que ele precisava que alguém comprasse.
em alguma das estações, entrou uma senhora e sentou do meu lado. na segunda rodada que ouviu, perguntou "quem usa agulha hoje em dia gente?"
lembrei da minha tia lia, costureira. das minhas aulas de vagonite e minha mãe falando sobre mulheres prendadas. lembrei da minha avó na sua fábrica de calcinhas, que competia com o forno de onde saíam os biscoitos de polvilho. lembrei das picadinhas que deixava um espaço pequeno pro sangue sair...
mas, sobretudo, lembrei do meu pai. da seriedade dele levando uma cesta cheia de doces em um dos ombros. debaixo de sol e chuva, fazendo rondas pelo centro de campinas, assobiando para chamar atenção dos clientes, oferecendo cocadas, paçocas, pés de moleque, pés de moças (sejamos justos), suflairs e outros tipos de chocolate. ele chegava em casa com mil moedas e nos chamava pra contar, feliz.
será que esse senhor tinha família?
olhei pra ele e levantei o dedo segurando meu celular. veio sorrindo até que não vendo os dois reais físicos lamentou "não aceito pix, moça. preciso de um celular. eu tenho dinheiro pra isso".
a senhora do meu lado se solidarizou. caçou na bolsa um papel. eu fiquei com as agulhas, ela não aceitou pix e o vendedor desceu do vagão.