145/365 - minha amiga morreu
Minha amiga linda, generosa, engraçada, debochada, alto astral, cuidadoso, que me introduziu na militância, que pegou na minha mão jovenzinha e recém entrada na faculdade e disse "isso é uma questão de raça. Isso é de gênero, isso é de classe". Ela quem também insistiu inúmeras vezes para que eu entrasse formalmente em coletivos e partidos políticos. Ela que me levou no aparelho luzia e me apresentou o movimento negro. Eu nunca atendi. Mesmo assim, ela me levava nos rolês da UNE, nas viagens, me contava as fofocas.
Ela que me incentivou a me inscrever numa vaga para um dos maiores portais que aborda a questão racial no Brasil. Eu passei. E foi meu primeiro melhor salário da vida. Quase três mil reais. Na época, era muito dinheiro e minha vida mudou consideravelmente. De lá pra cá, muitos frutos bem sendo colhidos desse tempo que passei neste lugar para o qual ela me levou. Generosamente.
Tenho meus arrependimentos. Mil deles. Me afastei, fechei meus olhos, ignorei, não quis lidar com o vício, com as mentiras, com os pedidos desesperados, com a saúde mental cada vez mais em frangalhos. Não quis mais.
Da última vez que a vi, foi na rodoviária de São Paulo. Tantas despedidas... Na última mensagem que trocamos, neste ano ainda, eu disse que sentia falta dela. E era verdade. É verdade.
Me desculpa ter sido uma pessoa horrível, amiga. Que você descanse em paz e esteja num lugar livre de dor, livre de vício, livre do desamparo. Que você encontre as pessoas que você admira. Que consiga respirar fundo sem preocupações. Que só se lembre das coisas boas que fez e que fizeram com você.
Você foi de extrema importância para mim e nunca te falei o quanto sou grata por ter cruzado com você. Me perdoa.