118/365 - macabea
Li A hora da estrela, de Clarice Lispector e hoje discuti no clube do livro sobre como a obra me tocou.
Também me pergunto com frequência se sou um monstro ou isso é ser uma pessoa, Clarice, por ir contra minha criação principalmente.
Ver uma pessoa tão simples economizando a vida, repetindo crenças que não fazia sentido algum para ela, me fez pensar em quantas vezes eu também já fiz isso. Por medo das ditas consequências, por preguiça de questionar ou por viver no automático na vida rala.
Como diz o livro, perguntar quem se é provoca necessidade. Quem se questiona, é sempre um ser incompleto. E eu concordo super, mas foi a terapia que me salvou, lá nos idos dos meus 18 anos. Mexer na ferida dói e até parece contraprodutivo, mas piora antes de melhorar.
E a áfita da minha boca está sarando aos poucos.
Uma pessoa do clube, muito mais otimista do que eu (explosão!), trouxe a relação de Macabea com o personagem principal de Dias Perfeitos. Macabea olha para as coisas simples da vida e é feliz com aquilo. Um ovo cozido, uma coca cola, uma sensação de andar de avião, mesmo que precedida por uma queda covarde, umas bolachinhas, um batom vermelho. Mas, para mim, a diferença é que esse senhor, ele tinha escolha. Vivia num cômodo só dele, era feliz na sua função, podia ouvir suas músicas livremente e pagar para beber sua água com calma naquele balcão. Tinha muito mais consciência e vida social mais consistente que Macabea, que levou uma vida miserável e morreu atropelada sem incomodar pessoa alguma.
Esse livro veio para lembrar que viver demais e ser feliz não chama castigo, como muitas vezes me fizeram crer. Quem amadurece plenamente apodrece e pode voltar a viver. Começo, meio e começo.