corpo
é preciso cuidar do corpo, das necessidades do corpo. não há possibilidade de conciliação com a natureza antes desse compromisso, é o primeiro passo, é primordial. não adianta cuidar de plantas, mexer na terra e construir teorias contra o fim do mundo se não olhar, primeiro, para o corpo. é nele que são firmadas as primeiras e mais sólidas barreiras entre nós e os outros.
o corpo precisa de água, de nutrientes, de movimento. precisa de sol, de contato com a terra, de prazer, de dar risada e de brincar. o corpo precisa de sono, de silêncio, de contemplação. precisa de descanso, de tédio, de invenção. e precisa também de contato, de profusão, de afetação. de toque. sem isso, o corpo míngua. a gente não cresce.
como ensinar meu filho a dormir se desrespeito meu corpo impondo continuamente a ele mais um episódio madrugada adentro? como ensinar meu filho a comer bem se, de tanto deixar as frutas para ele, elas acabam apodrecendo nas gavetas da geladeira? como falar de ser bicho, de reaprender a experimentar a conexão sensível com o planeta, sem vivenciar isso em meu próprio corpo? sem pegar minhoca com a mão, sem comer fruta sem lavar, sem andar descalça?
talvez meu descontentamento perpétuo com a vida venha de um lugar de indefinição, desse estar em cima do muro entre modelos distintos de existência. nunca me encontrei nos protocolos de uma sociedade que abomina a terra, mas foi em meio a eles que fui criada e foi por causa deles que decresci. talvez por isso eu pegue todas as viroses que meu filho traz da escola para educar seu sistema imune. o sistema imune também precisa de contato para crescer e antes tarde que nunca.